O Blogue Enfermidagem deseja a todos os seus leitores Enfermeiros um bom natal ou uma feliz passagem de ano (escolham a que mais vos adequa mediante os turnos que façam).
O dia de um criminoso
7.00 - Toca o despertador. Coloco em silêncio por mais 10 minutos... (estava cheio de sono por fiz tarde no dia anterior e estava cansado).
7.10 - Levanto-me. Lavo a cara, escovo os dentes e visto-me. Dou um beijo à mulher e outro à filha, que nem os olhos abriu.
7.20 - Ligo a torradeira. Já é tarde e não tenho tempo para tomar o pequeno almoço sossegado.
7.30 - Saiu de casa e como o pão pelo caminho. Acho que já faço o caminho de forma inconsciente... vou pensando nas 14 horas de trabalho que tenho pela frente.
7.55 - Estou dentro do carro a bufar porque está um transito infernal e estou a ver que vou picar o ponto a passar da hora.
8.00 - estaciono a correr e consigo picar o ponto a horas. Subo a correr para o serviço e vou receber o turno ainda vestido à civil.
8.15 - Preparo a medicação dos meus utentes. Administro a medicação.
8.30 - Começo nos cuidados de higiene. Não tenho toalhas para todos os meus doentes dependentes. Nos últimos uso lençóis a fazer de toalha.
10.30 - Termino os meus cuidados de higiene. Pensos estão feitos. Acessos venosos revistos. Pelo meio já fiz figura de corpo presente para acompanhar a visita médica, pois eles fazem alterações terapêuticas e de cuidados e agem como se eu lá não estivesse.
10.40 - Vou à copa do serviço 10 minutos para comer qualquer coisa.
10.50 - Sento-me ao computador a fazer registos. Tento não me esquecer dos 30 parâmetros/escalas que tenho que preencher.
11.10 - O horário das visitas já começou. Já tentei explicar a dois familiares que só posso dar informações de Enfermagem sobre os utentes em questão. Tudo que seja informação médica, terá que falar com os médicos (que por acaso hoje não dão informações porque estão no bloco).
11.40 - Colheita de sangue para controlo analítico.
11.40 - Colheita de sangue para controlo analítico.
12.00 - Tento acabar os registos e vou a correr ver a medicação do meio dia e pesquisas de glicemia capilar antes das refeições. Verificação das fraldas dos utentes que as têm.
12.30 - Lá consigo terminar os registos. Tenho dois utentes à espera, já com a família a largar fumo pelo olhos, pelos documentos da alta. Já lhes expliquei que a alta de enfermagem está pronta. Faltam as notas de alta médica.
12.40 - Vou almoçar. 30 minutos que esqueço o serviço. Mostro o meu desagrado com os colegas que almoçaram comigo e que apenas estão a fazer o turno da manhã. Seus malandros!
13.20 - Tenho os familiares a fazerem-me uma espera pois querem a papelada da alta. Tenho o cuidado de ligar para o xor doutor a perguntar se vai demorar. Passados 10 minutos entrego os papéis e reforço os ensinos para o domicilio.
13.40 - Transfiro os doentes dependentes para o leito. Alguns por vontade própria... outros sem qualquer tipo de vontade. Estiveram sentados por obra de caridade do Enfermeiro.
14.00 - Segunda ronda de avaliação de sinais vitais.
14.15 - Desço um doente urgente para o bloco. Preparação pré-operatória a correr. Tudo para ontem. toalhita de clorohexidina no abdomém e siga. Tudo para ontem.
14.30 - Ainda à espera do elevador para descer o doente. Rais parta os xôres doutores que escolhem sempre as horas de ponta para pedir doentes.
14.40 - Doente com hb de 6.7. Colho tipagem de unidades. Deixo acesso venoso.
14.40 - Doente com hb de 6.7. Colho tipagem de unidades. Deixo acesso venoso.
14.50 - Preparo medicação da tarde. As pernas já começam a doer.
15.15 - Terceira ronda de medicação do dia.
16.00 - Inicio dos registo de Enfermagem do turno da tarde. Começa o second round de visitas. Papel para uma criança de 2 anos, por favor. Não! Começa a minha tentativa para tentar explicar o porquê do não.
16.30 - Inicio transfusão da unidade de GR.
16.30 - Inicio transfusão da unidade de GR.
17.00 - Chega a família de um utente para receber ensinos sobre cuidados à colostomia. Doente na sala de tratamento e faço os ensinos, tentando que a esposa do utente não tenha uma síncope ali à nossa frente. Tento ser o mais completo possível pois, ouvi nas costas dos xôres doutores, que amanhã poderia ter alta.
18.00 - Quarta ronda de medicação. Volto a posicionar os utentes que necessitam e volto a verificar o seu estado de higiene (aka: mudar fraldas).
18.30 - Termina unidade de GR.
18.30 - Termina unidade de GR.
19.00 - Vou lanchar alguma coisa, pois já tinha o estômago a roer. 10 minutos depois recebo um doente dos cuidados intensivos.
19.10 - Monitorizo doente. Faço o acolhimento do mesmo. Coloco colchão de pressão alterna.
19.15 - Procedo à alimentação do utente pela SNG.
19.45 - Sento-me na sala de Enfermagem a descansar as pernas.
19.48 - Toca o doente à campainha a dizer que tem o peno repassado. Levanto-me para renovar o penso abdominal do utente.
20.15 - Na televisão da enfermaria falam sobre a greve dos Enfermeiros. Ouço alguém no quarto dizer que desconta para nos pagar o salário. Respiro fundo. Num tom cordial e ironicamente respondo-lhe que de facto eu não desconto para ninguém. Que o meu ordenado do final do mês é isento de descontos. Despeço-me do senhor, dizendo-lhe que de facto, sou Enfermeiro por vocação. aproveito para lhe dizer que o horário das visitas termina ás 20.00 horas.
21.00 - Última ronda pelo doentes. Optimizo posicionamentos e verifico novamente as fraldas.
21.30 - Falta subir um doente da urgência. Não quero deixar para o colega da noite e ligo para o colega. Peço que me transfira o doente logo que possível.
21.45 - Chega o doente. Faço o acolhimento e a avaliação inicial de Enfermagem. Já não sinto as pernas e tenho a cabeça a 15 km dali.
21.55 - Passo o turno. Peço ao colega para fazer os registos de Enfermagem do utente que entrou. Ignoro a má cara que ele fez. Hoje ele... amanhã eu.
22.15 - Tomo banho. Chego ao parque de estacionamento. Tenho que pensar onde deixei o carro.
22.40 - Entro em casa. Não jantei, estou cheio de fome. Visto o pijama. Vou dar um beijo à minha filha, que nem os olhos abriu. Penso para mim: Será que ela amanhã lembra-se da minha cara? Vou para junto da minha mulher. O meu jantar é uma fatia de bolo de chocolate e uma caneca de café. Deito-me no sofá... consigo falar com a mulher sobre o nosso dia durante 5 minutos antes de adormecer.
00.30 - Acordo com alguém a abanar-me as pernas e a dizer. amor... anda para a cama. Já na cama pergunto-lhe:
- Será que dei tudo de mim hoje? será que fui bom Enfermeiro hoje?
- Será que dei tudo o que os doentes precisavam hoje?
- Será que sou realmente um criminoso?
Até amanhã.
A arte do improviso...e o estado da saúde
O fatal acidente com o heli do INEM e toda a polémica que tem despoletado na comunicação social (mais aqui) só mostra no estado em que chegou o socorro em Portugal e de uma forma direta, o SNS.
Todo o socorro a acidentes/catástrofes ou qualquer outro tipo de ocorrência que envolva a protecção civil, está envolta em polémica. Vejamos:
Temos aqui três exemplos de ocorrências significativas que têm algo em comum: Falhas da protecção civil (claro que na queda da pedreira, a falha não ocorreu no socorro, mas sim na prevenção).
Na minha opinião isto deve-se a uma coisa enraizada no povo português, a que damos o nome de Arte do Improviso. Nós portugueses sempre fomos habituados a desenvolver e aperfeiçoar esta bela arte... e desde novos que o fazemos. Quem nunca em criança jogou futebol com uma lata de refrigerante a servir de bola? Isso é improvisar. Quem nunca em criança usou uma câmara de ar de pneu a servir de boiá? Isto é improvisar. Até na música somos mestres a improvisar... Veja-se as desgarradas típicas do minho, que se baseiam na arte do improviso.
E na Enfermagem? Não improvisamos nós todos os dias?
Quem nunca usou algodão porque não tinha compressas? Quem nunca aplicou um tratamento a uma ferida porque não tinha o tratamento mais adequado disponível? Quem nunca fez uma adaptação a algum saco de drenagem com tegaderm porque não tinha a conexão certa para aquele diâmetro de saco? Quem nunca usou um cobertor a servir de almofada? Quem nunca fez os seus truques para colocar uma bomba perfusora a funcionar?
Podia estar a noite toda a dar exemplos...
Quando as coisas correm bem é perfeito. Os cuidados foram prestados... evitamos o agravamento da situação... não consumimos recursos materiais... e até nem chateamos o chefe com o pedido de material ou para proceder ao arranjo de algum equipamento. Lembro-me de ouvir no curso de licenciatura que os Enfermeiros são mestres na arte do improviso.
O problema é quando as coisas correm mal, e abrem-se inquéritos para apurar o sucedido. Verifica-se uma falta de rigor nos procedimentos e protocolos a seguir em situações especificas. Chega-se à conclusão que todo o processo decorre muito na base do improviso.
Acho que para evitarmos de assentar o cu no mocho, temos que começar a esquecer esta magnifica arte do improviso e começar a proceder com todo o rigor e exactidão que nos é exigido. E sim... chatear o chefe quando não temos material ou quando os monitores não funcionam. E lembrem-se... registar sempre tudo!
O acto de limpar cús...
Transcrevo aqui um texto de um colega nosso. Devia ser editorial nos jornais quando falam da greve dos Enfermeiros.
"Assunto: O acto de Limpar o cú!
O estigma que se criou à volta deste procedimento é curioso. Pelo menos na minha perspectiva. Os outros cursos de saúde continuam a repudiar este ato e fazem dele objecto de troça. As pessoas cerram os lábios e fazem cresceras narinas, como se de algo horrível se tratasse. Cada vez que tocam no assunto, riem e gozam com a maior das indiferenças.
Naturalmente que limpar um cú não é um procedimento difícil e qualquer analfabeto o pode fazer. Mas não seria igual.
Qual será a primeira impressão que a pessoa tem do trabalho do enfermeiro? Não fosse esta uma pergunta retórica, aquilo que mais se ouviria seria “Dar vacinas” e “Faz higienes”. Francamente, esta ideia tão limitada que ainda subsiste tão viva na população, não está certa e não está errada, porém, leva a pensar num trabalho leve, fácil e pouco desgastante dos enfermeiros.
Decerto que qualquer comum dos mortais se gabaria do facto do individuo licenciado com tão prezado conhecimento lhe limpar o cú, com a maior alegria e simpatia. Porém, aquilo que não sabem, e que os tão bem rotula, é que o cú foi observado e as fezes foram avaliadas. São tão ingratos que nem percebem que os substituímos numa das tarefas mais íntimas do ser humano, a higiene. Talvez não saibam que é um parâmetro tão importante que ao ponto de ser registado diariamente.
Fui eu, tão estimado Sr. Enfermeiro, que coloquei a fralda e as manápulas sujas no contentor, mas também fui eu que alertei a nutricionista sobre a sua alimentação e também fui eu que abordei o médico sobre a sua diarreia, e da possível troca do antibiótico. Era eu, que após tantas intervenções e preocupações, todos os dias, continuava de volta das suas fezes e digníssimo cú, à espera de resultados. Já viu!? Tantos profissionais trabalharam para sí, o doutor explicou-lhe a situação e alertou-o da mudança do antibiótico e a Srª Nutricionista referiu-lhe a mudança da alimentação. E eu? Limpei-lhe o cú!...
Sabe quantos doentes diferentes me passaram pelas mãos? Quantas personalidades e quantos corpos. É por isso que já sou mestre na comunicação e guardo a sua privacidade como se fosse a minha, todos os dias. E mesmo assim, o Sr. Doente põe o pé fora do hospital e ri, ri da minha profissão, opinando regularmente sobre assuntos que caem de boleia nos jornais que não percebem nada do assunto.
A doente A.G da cama 6 tinha dado entrada no serviço com o diagnóstico de pneumonia, mas eu vi-lhe uma fístula no cú! O Doente V.P da cama 15 tinha DPOC, mas eu prestei atenção na possível alteração hepática pela coloração das suas fezes. E você pergunta: “Ah! Como é que o Sr. Doutor adivinhou?” Pois, não adivinhou, foi o «limpa cús» que lhe disse!
Aposto que da próxima vez, espero que não seja para breve, quando for internado, vai desejar fugazmente que seja o Sr. Enfermeiro a limpar-lhe o cú!
Um bem haja a todos aqueles que enchem a boca para desdenhar do que não percebem, não fazem e não sentem a enfermagem.
Abraço,
Hélder Teixeira"
Ora aqui está...
Tanto se tem dito e escrito sobre a nossa greve. Confesso que por vezes, não consigo estar mais do que 2/3 minutos nas redes sociais, pois a barbaridade escrita e dita por lá rebenta com qualquer cérebro com o mínimo de massa cinzenta.
Prometo que numa próxima publicação vou fazer uma compilação das melhores frases dos "haters" dos Enfermeiros.
Deixo-vos aqui esta noticia do primeiros jornal português de Fact-Checking (qual Fátima Lopes e a sua máquina da verdade...)
Já morreram pessoas no Hospital Santa Maria por causa da greve dos Enfermeiros?
Prometo que numa próxima publicação vou fazer uma compilação das melhores frases dos "haters" dos Enfermeiros.
Deixo-vos aqui esta noticia do primeiros jornal português de Fact-Checking (qual Fátima Lopes e a sua máquina da verdade...)
Já morreram pessoas no Hospital Santa Maria por causa da greve dos Enfermeiros?
A greve é de quem?
A greve é nossa, dos Enfermeiros, certo? Então porque vejo na comunicação social a classe médica ser a grande protagonista? Quais virgens ofendidas...
Não deviam estar os médicos... os doutores... perdão... os cirurgiões que fazem privada a esfregar as maõzinhas (limpas e desinfectadas) de contentes, uma vez que a cirurgia no privado vai disparar? Dirão eles: Venha a nós o nosso reino... e livrai-nos da progressão da carreira do Enfermeiros.
Deixo-vos aqui esta noticia... fez-me lembrar aquela rubrica da última página do jornal A Bola... Aquele barbeiro que conta sempre uma piada.
Para responder à greve, médicos fariam cirurgias sem enfermeiros? Não, diz Ordem
Não deviam estar os médicos... os doutores... perdão... os cirurgiões que fazem privada a esfregar as maõzinhas (limpas e desinfectadas) de contentes, uma vez que a cirurgia no privado vai disparar? Dirão eles: Venha a nós o nosso reino... e livrai-nos da progressão da carreira do Enfermeiros.
Deixo-vos aqui esta noticia... fez-me lembrar aquela rubrica da última página do jornal A Bola... Aquele barbeiro que conta sempre uma piada.
Para responder à greve, médicos fariam cirurgias sem enfermeiros? Não, diz Ordem
Greve Cirúrgica #1
Nota prévia: Não tenho nada contra a Joana, que trabalha à 2 anos e ganha o mesmo que a Sónia que trabalha à 10 anos. É importante esclarecer que a Joana recebe pouco para inicio de carreia e a Sónia ainda recebe pior pelos 10 anos de carreira.
Muito se tem falado da greve cirúrgica levada a cabo pelos Enfermeiros, em alguns blocos deste país.
É importante esclarecer alguns pontos:
Realmente esta greve assustou muita gente,pois finalmente viram que uma classe unida pode ter um impacto enorme da sociedade e nos governos.
Os Enfermeiros optaram por se focar numa das questões que mais interessa aos administradores hospitalares e ao governo: As Cirurgias não urgentes.
E o que nós pretendemos com isto tudo? Apenas justiça e dignidade.
Justiça perante as outras licenciaturas... justiça porque queremos uma carreia justa.
Dignidade porque lidamos com a vida das pessoas... dignidade porque o bom funcionamento do SNS depende de nós... Dignidade porque prestamos cuidados de saúde de excelência e o tempo da Enfermagem por vocação e caridade já lá vai à muito tempo.
Triste é a nossa comunicação social, que é perita em manipular a opinião pública. Não devemos fugir do foco nem ter medo colegas.
É agora ou nunca.
Muito se tem falado da greve cirúrgica levada a cabo pelos Enfermeiros, em alguns blocos deste país.
É importante esclarecer alguns pontos:
- O fundo monetário foi totalmente assegurado por Enfermeiros;
- A greve é totalmente legitima e legal;
Realmente esta greve assustou muita gente,pois finalmente viram que uma classe unida pode ter um impacto enorme da sociedade e nos governos.
Os Enfermeiros optaram por se focar numa das questões que mais interessa aos administradores hospitalares e ao governo: As Cirurgias não urgentes.
E o que nós pretendemos com isto tudo? Apenas justiça e dignidade.
Justiça perante as outras licenciaturas... justiça porque queremos uma carreia justa.
Dignidade porque lidamos com a vida das pessoas... dignidade porque o bom funcionamento do SNS depende de nós... Dignidade porque prestamos cuidados de saúde de excelência e o tempo da Enfermagem por vocação e caridade já lá vai à muito tempo.
Triste é a nossa comunicação social, que é perita em manipular a opinião pública. Não devemos fugir do foco nem ter medo colegas.
É agora ou nunca.
Bem Vindos ao mundo da Enfermagem
A Enfermagem nunca esteve tanto na ordem do dia... Nós Enfermeiros sabemos todos o que valemos, sabemos todos o trabalho que desenvolvemos, mas acima de tudo, sabemos todos o que merecemos. E a opinião pública, sabe? Talvez não...
Decidi criar este espaço, para de uma forma muito pessoal, falar sobre a nossa querida profissão... a ENFERMAGEM.
Não se trata de uma página politica, nem tão pouco sindical... trata-se de uma página para TODOS nós. Para falar do dia a dia... para mandar piadas... para falar de tudo que esteja relacionado com a Enfermagem... daí o nome escolhido para este blog ser ENFERMIDAGEM.
Espero que gostem e se divirtam tanto como eu.
Um Enfermeiro...
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